segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Andar ao lado de pessoas humildes nos faz viver melhor, experimente.

"Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se". (Gabriel Garcia Marquez)

As crônicas das minhas andanças pelos transportes urbanos da cidade, principalmente nos ônibus, me fazem acreditar na poesia da vida. É o contraponto das mazelas que vemos nos noticiários da televisão difundidos pelos profetas do apocalipse, os apresentadores Marcelo Resende e José Luís Datena. A vida não é só desgraça de mortes, dramas policialescos mostrados in loco de cima pelos helicópteros, por baixo através das viaturas nervosas trafegando na contra mão e fazendo os shows que acabam virando roteiros de filmes. Perseguição, batidas, invasões, prisões, drogas, armas, dinheiro, hospital, maca, corpos estendidos no chão, etc. Sabemos que a nossa televisão vive de audiência e quanto mais sangue, maior a audiência. Somos forjados pela emoção negativa, doentia, predadora, sentimental barata, fútil. 
Por isso quando tenho o privilégio de entrar num ônibus pelo meu dever de ofício, cuidando como membro do Instituto Vital e voluntário dos Anjos da 3a. Idade®, devidamente trajado com a camisa bordada, ocasião que me apresento com defensor dos direitos sociais dos idosos e convencemos as pessoas a cederem o espaço ocupado do assento preferencial a um idoso. Faço valer o que exercemos, estabelecidos nos deveres da nossa missão.
Em outras oportunidades pegamos os trens da CPTM e Metrô e também nos ônibus para fazer as Blitz do Vital®, que muitos já conhecem através do blog do Vital.


Surpresas durante as viagens
Mas o interessante é acabamos pegos com atitudes surpreendentes dos passageiros. Isso não tem preço.
Estas viagens estão me moldando a entender melhor as nuances do que se passa realmente no interior de um ônibus. Não podemos pensar academicamente como técnicos e planejar uma ação e colocá-la em prática. As chances de não dar certo são fortes. É preciso conhecer o campo destas ações e esta vivência está me dando subsídios fantásticos e quando colocarmos as ações, já saberemos de antemão as chances de dar certo ou não. Por exemplo, outro dia destes nos deparamos com um cidadão totalmente alcoolizado. Se dizia Neném do bico doce, falava sozinho o tempo todo, ninguém se aventurou em sentar-se ao lado dele, tendo como resultado a ocupação de dois assentos preferenciais, aqueles dois logo atrás do motorista. E quem seria louco de ir lá e pedir para ele descer ou parar de agitar? Eu procurei ficar próximo, havendo uma chance falaria com ele, e o ouvi dizer olhando para fora da janela: – Se eu eu ganhar na loteria, ninguém vai andar a pé! Provavelmente compraria um ônibus e levaria todo mundo de graça. De repente se levantou, vi em sua mão o cartão especial que lhe daria a passagem livre e gratuita. Era um cidadão do bem, apenas estava um pouco alterado pelo fato de ter ingerido bebida alcoólica. 
Desceu e lá se foi o nosso personagem Neném do bico doce. Os seus dois lugares foram imediatamente ocupados por duas senhorinhas idosas que ainda falaram do tal bebum. 

Não estamos acostumados com o carinho
Em outra viagem, na mesma linha 8000 - Lapa /Praça Ramos, presenciei outra situação. Desta vez um senhor de idade com AVC, sua parte do lado direito totalmente prejudicada. Quando subiu, no meio do caminho, nos baixos do Minhocão, se locomoveu com extrema dificuldade até parte da frente do ônibus, local onde existem mais assentos preferenciais que estavam todos lotados. Eu, que me sentava em local não indicado como especial, me levantei, porém era em cima da roda, havia um degrau a mais e este senhor não conseguiria sentar-se. Vendo esta dificuldade, outra senhora idosa do outro lado do corredor, levantou-se do lugar em que estava e cedeu ao senhor. Então pedi a ela que se sentasse no meu lugar. Ela recusou-se, disse: – Obrigado, descerei no próximo ponto! Enquanto isso aquele senhor se acomodou e segurando uma bengala, observava o ônibus seguir o caminho até o destino final. Quase próximo da avenida S. João com a rua Aurora, ele põe a mão (a que funciona) e tira do bolso umas três ou quatro balas e estica até ao motorista e diz: – Motorista quer uma balinha? Prontamente o motorista, que aguardava o semáforo abrir, pega as balas, desembrulha uma e coloca na boca. 

Quem somos?
Seguimos em frente e fiquei pensando. Como nós somos egoístas. É preciso um idoso com problemas de locomoção para se lembrar e se importar com aquele que nos conduz todos os dias. E nós? Simplesmente nos colocamos em portas no automático, achamos que não existe um ser humano na condução daquele veículo. Ou aquele que estando alcoolizado, fica marginalizado pelas pessoas que tem nojo e medo. Tudo isso nos faz parar para refletir. O que queremos dessa vida? Ficar chocado com o sangue da notícia sentado na poltrona? Ficar com a sensação de segurança quando a policia mata ou prende, ou ficar ensandecido quando o bandido ceifa a vida das pessoas? A verdade é que nós não nos importamos com aquele que está ao nosso lado. Precisamos de mais humanidade, caridade e generosidade. Devemos nos lembrar de madre Teresa de Calcutá. "É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado". E a partir deste dia, ando com um saquinho de balas na minha bolsa, vai que...

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