quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Dr. House onde está você?

Quando pequeno em Rio Preto aprendi com o meu falecido pai a ouvir algumas palavras e frases esquisitas, às vezes desconexas, como por exemplo, "fulano deu uma de João sem braço". Menino pequeno, não entendia nada, apenas ouvia. João sem braço? Coitado, aleijado, deficiente físico? Como será que ele perdeu o braço? Atropelado, esfaqueado, mutilado? Qual nada, mais tarde acabei sabendo que era uma expressão popular de alguém que deu um golpe noutra pessoa, num comércio, numa loja, se fez de sonso, dissimulado, enfim, deu uma de migué. Levou e não pagou. Procurando algumas definições puras: 
1) Pessoa preguiçosa, desentendida, que se faz passar por boba. 
2) Personagem do imaginário popular que se refere a uma pessoa que finge não entender o que esta acontecendo para tirar vantagem da situação. 
3) Diz-se a pessoa que finge que não sabe de algo para seu bem próprio, como fugir de uma confusão ou não fazer algo que lhe foi imposto, etc.
4) Malandro, desentendido. 

Viram só? Quantas definições. Pois é, hoje como de costume, subi no ônibus e segui para o centro da cidade. Pego o ônibus na saída do Terminal da Lapa. Por força do hábito fico observando os idosos, ora para relatar nas Blitz do Instituto Vital do Bem Estar da 3a. Idade sobre o desrespeito do uso inadequado do assento preferencial por parte de pessoas normais, ora para justamente adquirir mais experiências no dia-a-dia dos idosos nos transportes coletivos urbanos da cidade de S. Paulo, observando-os. 
E no ensejo destas observações anoto diariamente todo tipo de atitude. São pessoas idosas que provocam um papo, falam da vida, falam do cotidiano e por aí vai. 
Hoje uma senhorinha de cabelos bem brancos, rugas marcantes no rosto, bem arrumada, sentou-se no banco atrás do motorista e lhe mostrou o RG (cédula de identidade). Dizia: – Tenho 84 anos bem vividos, nasci e me criei aqui na Lapa, vivo e moro perto da Praça Cornélia, é lá que irei descer. 
São aproximadamente cinco ou seis quadras do ponto inicial. E a velha senhora, continua:
– Nunca bebi, nunca fumei por isso estou forte. Me poupei e agora colho os frutos, possuo uma saúde de ferro. Do outro lado do assento, também na frente da cabine, estava sentado um senhor de cor parda e cabelos brancos, lembrando o pai Tomás. Só ouvia o papo da senhorinha. O motorista querendo ser simpático disse que aquela cópia em miniatura da carteira de identidade só podia ser de São Paulo, pois se fosse maior seria de Itu, comparando com a mania de tudo ser grande em Itu. A senhora não entendeu e ficou se explicando ao motorista que havia sido assaltada e que para se garantir só iria sair com a cópia do original, que deixou em casa. Todos sorriram no ônibus. Chegou ao ponto e ela desceu, desejando um bom trabalho a todos com a proteção de Deus. Agradecemos. E o ônibus seguiu em frente. Mais umas seis paradas, no ponto do Parque da Água Branca, desce o nosso velhinho de cabeça branca. Não tinha reparado quando ele entrou no ônibus, pois portava uma bengala. 





































Saiu devagar e após firmar o pé na calçada, recolheu a bengala. Um verdadeiro 171, aquele que o meu pai, se vivo fosse, diria: 
– Este velho aí deu o golpe do João sem braço. Eu diria que ele não é um velho, diria sim que é um verdadeiro velhaco. Ah, se dr. House estivesse ali, o que ele faria?

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